Parecia-se muito com um consultório médico, ou uma sala de hospital qualquer. Era amplo e bem espaçoso, de paredes e azulejos brancos que deixavam o lugar mais claro com a iluminação. Ao longo do teto, várias lâmpadas pendiam e algumas piscavam sofrendo com alguma interferência elétrica em suas redes.
Espalhados pelo lugar, várias macas de metal vazias, algumas sujas de sangue, esperavam para serem usadas. Cada vez mais o ambiente se parecia com um hospital, sentindo o cheiro de naftalina e mais algumas coisas indefinidas – produtos de limpeza, soro, mofo, etc. Estavam em lugares aleatórios, sem uma cortina ou manta para demarcarem seus devidos lugares; enquanto, de um lado estava uma janela trancada a cadeado e com tábuas vedando-a totalmente, do outro havia uma mesa de pedra polida, salpicada nas cores prata e cinza, destacando-se mas cabendo perfeitamente na fria sala. Em cima dela, vários objetos aguardavam ansiosos para serem usados.
O rapaz, cujo jaleco já fora um dia impecavelmente limpo, ajeitou os óculos no rosto e aproximou-se. Avançou por sobre a bancada, alcançando longe o objeto metálico. Sorriu, observando como ainda estava polido e reluzente, como se nunca tivesse sido usado. Passou o dedo pela fria lâmina do bisturi, constatando o pequeno corte que havia provocado em seu dedo, levando-o aos lábios antes que a gotícula escarlate de esparramasse no chão.
Virou-se para a maca mais próxima dele. Olhou para a mulher ali, repousando, de órbitas arregaladas para si. Sorriu mais uma vez, contemplando-a como se fosse um quadro, uma obra de arte inacabada. Sentiu a mesma satisfação que sentem os artistas a darem prosseguimento aos seus “filhos”, chegando até mesmo a dar água na boca.
-“Eu a imagino deitada, dormindo.” – Recitou a primeira frase de um poema que sempre se lembrava naquelas ocasiões. – “Dormindo, porque não morta. Dormindo, porque imaginá-la fora da aridez do sono, é demais.”.
Aproximou-se cousa de um passo e a moça estremeceu, gemendo com a mordaça a vedar-lhe a voz. Moveu-se o que pôde, tendo pulsos e calcanhares amarrados cada qual em suas respectivas pernas da mesa. As grossas cordas já haviam marcado a pele branca, deixando fortes vergões sanguíneos.
-Se eu a deixasse assim, com o frio que está fazendo aqui dentro, estaria morta pela manhã, com o corpo amortecido. Seria doloroso e agoniante, não acha?
Olhava-a curioso, mas ela apenas gemeu baixinho mordendo o grosso pano enrolado que lhe prendia a língua. As lágrimas retornaram para seus olhos, molhando mais uma vez a face corada.
-Shhh, não faça isso... – Disse de forma suave, como se quisesse acalentar uma criança que acabou de perder um doce. – Se prometer se comportar, eu prometo ser rápido... Ou não... Mas ainda tem uma chance, melhor ser uma boa menina!
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